Quando o Bazar da Praça nasceu, há 9 anos, o movimento sobre consumo consciente no Brasil era praticamente inexistente. O que nos movia era a curiosidade e o prazer em conhecer marcas artesanais produzindo peças com tanta qualidade e de uma estética tão apurada. A aproximação com cada marca sempre foi através de uma relação emocional. O caminho profissional do Bazar da Praça veio com o tempo.

Acompanhamos muitas marcas nascerem, muitas fecharem e tantas outras evoluírem. O envolvimento com essas histórias empreendedoras produziu um conhecimento e uma visão que queremos compartilhar para contribuir com esse mercado e com os movimentos das marcas artesanais.

Quando falamos em consumo consciente, estamos trazendo esse adjetivo “consciente” para um comportamento diário, cultural e social. Mas antes que o desgaste desse conceito roube nossa escuta, podemos nos perguntar o que exatamente quer dizer consumo consciente? O que ele tem a ver com sustentabilidade?

Ser consciente é estar acordado, disposto, é estar ativo, é ser responsável pelo que se passa conosco. Quando consumimos sem qualquer tipo de questionamento, seja alimentos, roupas,  objetos, cosméticos e mesmo serviços, ficamos reféns de ciclos que desconhecemos e que talvez não estejamos de acordo.

Em primeiro lugar, é preciso compreender o impacto econômico que significa consumir exclusivamente de grandes marcas.  Por serem grandes de verdade e com fortíssimo poder de fogo, elas estão em todos os lugares, em todos os mercados, shoppings, canais de mídia paga. Torna-se quase impossível escapar de consumi-las. Mas toda vez que consumimos um produto de larga escala, estamos deixando de consumir dos pequenos produtores. E isso significa fortalecer as grandes marcas, aumentando seu poder de barganha e diminuindo mais e mais a força do pequeno empreendedor. Resumo da ópera: não há competitividade possível e muitos sonhos, talentos e bons negócios serão aniquilados nesse sistema. Nos restarão sempre as mesmas grandes marcas, que muitas vezes, produzem com baixa qualidade, utilizando materiais, ingredientes e processos duvidosos. 

A fragmentação do trabalho, na busca pela especialização das tarefas trouxe eficiência de tempo e eficácia em resultados. Porém o distanciamento dos trabalhadores e dos consumidores de todo o processo produtivo traz uma grande alienação, uma indiferença, uma apatia que encontra no próprio consumismo o sentido perdido. Em oposição, quando compramos diretamente de quem produz, vivenciamos um contato mais profundo, mais integrado e a peça ganha contornos emocionais que minimizam seu descarte prematuro, e alimentam a alma do consumidor.  Pode-se até ter pago um valor mais alto comparativamente aos produtos das grandes marcas, mas essa vivência acaba por retardar o reinício do ciclo de consumo, porque a necessidade de contato foi satisfeita.

Além disso, é preciso atentar para a seguinte equação:  não há  produtividade sem consumo de recursos naturais e cadeia produtiva –  diga-se pessoas trabalhando –  a todo vapor. Por isso desconfie: se o preço final de uma peça é muito barato pode ter certeza que Natureza e ser humano estão sofrendo grande pressão e forte desgaste.

Sustentabilidade é outra palavra tão usada em tantos e diversos cantos que perdemos o fio da meada… Mas ela quer trazer a questão da ecologia para o primeiro plano. O que tiramos da Terra e o que devolvemos à ela? Como amenizar, cuidar, restaurar os danos causados pela produtividade exacerbada? E como alimentar uma nova cultura onde essa consciência pela sustentabilidade do Planeta seja uma prática diária?  No Brasil temos um costume de usar apenas produtos novos: roupas, bolsas, sapatos, carros, casas. O desgaste das peças nos remete ao fracasso. E para isso é preciso estar incessantemente consumindo. Essa lógica retroalimenta as grandes cadeias que vendem fast-fashion a preço de banana. Optar por peças de qualidade com maior durabilidade é uma atitude sustentável. Costurar um botão ao invés de comprar uma nova camisa também é cuidar da sustentabilidade dos processos.  E todos,  com suas diferentes possibilidades econômicas podem fazer escolhas mais sustentáveis.

Estar consciente no momento da compra, é poder escolher o que se quer valorizar. E então um grande leque de escolhas se descortina. Grandes e pequenas marcas podem coexistir dentro desse espectro e o consumidor pode optar hora por preço, hora por durabilidade, por exemplo. Pode consumir por conveniência certo dia e noutro por motivações pessoais. Pode querer a confiabilidade de uma grande marca, ou incentivar um pequeno produtor.

Consumo consciente não significa necessariamente comprar apenas dos pequenos, mas estar atento e ativo no ato da compra, percebendo-se parte do processo.

Em 9 anos de atuação participamos do crescimento desse movimento pelo consumo consciente e acompanhamos o fortalecimento de pequenas marcas. Hoje em dia, parace muito mais fácil parear um produto de ateliê à um produto de grandes marcas. O consumidor sente-se mais à vontade comprando uma peça de marca desconhecida. Muitos movimentos ganham força como slowfood, slowfashion, #compredopequeno, consumo local, #fashionrevolutionday, Sistema B, prêmio Ecoera, entre tantos outros. 

As artes manuais deixam de ser atividades “desimportantes” e passam a ser vivenciadas como atividades de socialização, meditativas e terapêuticas. E o tempo está em transformação: caminhamos do conceito  “time is money” para o tempo da experiência. Que não tem preço e que está para além do relógio.

E viva o novo Tempo do consumo consciente!

 

Um pouco sobre nós:

Fernanda, que começou os bazares,  sempre teve uma capacidade agregadora, uma vontade genuína de reunir pessoas em torno de situações interessantes. Tati (em memória)  com seu olhar muito apurado para as Artes, gostava de  desvendar novos talentos e boas marcas. Carol, sendo artesã, sempre trouxe a visão e a vivência de uma marca artesanal e sua mentalidade empreendedora.

Imagem no alto:  Studio Drê Magalhães

 

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